terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A TENTAÇÃO do DÍZIMO 1ª E 2ª Pt

1 – Introdução



No número 932 da revista “Portugal Evangélico” das Igrejas Metodista e Presbiteriana de Portugal, foram publicados vários artigos sobre a contribuição cristã, apresentando várias opiniões sobre o assunto que começamos por divulgar:

1.1 - O dízimo - De autoria do Pastor Brissos Lino, da Igreja do Jubileu de Setúbal

“A última parte da pessoa que se converte a Deus é a carteira”. Esta conhecida expressão simboliza a dificuldade que alguns cristãos têm em lidar com as suas finanças no reino de Deus.

O dízimo é prática corrente na generalidade das igrejas evangélicas, e fundamenta-se em razões bíblicas, teológicas e de carácter prático.
Bases bíblicas:
O dízimo era observado entre os povos antigos, existiu antes da lei de Moisés (Abraão e Jacob), foi estabelecido e confirmado na Lei, mas também ao longo de todo o Antigo Testamento foi praticado, como no tempo de Amós 4:4, no reinado de Ezequias II Crónicas 31:2/5, nos dias de Neemias. Neemias 10:37/38; Neemias 12:44; Neemias 13:5/12, e com Malaquias 3:8/10.

No Novo Testamento, Jesus aprovou a prática do Dízimo, tanto na forma expressa Mateus 23:23, como tácita Lucas 11:42; Lucas 18:12. O dízimo é também legitimado pelo autor da Carta aos Hebreus, que apresenta duas ordens de sacerdócio, a de Levi e a de Melquisedeque, Levi recebeu dízimos do povo, de acordo com a lei de Moisés, e Melquisedeque recebeu-os de Abraão, em tempos anteriores à Lei. Se o dízimo como instituição não se inicia com a lei, mas lhe é anterior, também não termina com a vigência dela. Sendo Melquisedeque o símbolo do sacerdócio eterno de Cristo, e tendo recebido dízimos, faz sentido que a igreja os receba.

O apóstolo Paulo também faz referência implícita em I Coríntios 9:13/14

Princípios do reino

Muitos dos princípios do reino de Deus são opostos aos princípios e valores do mundo. Se tenho dez e dou cinco, restam-me cinco. Mas a matemática do reino é diferente. Quando se dá a Deus Ele age sobrenaturalmente de modo a que nunca nada nos falte, Com Deus o menos torna-se mais, e sem Deus acontece o contrário.

O cristão sabe que nada é dele, tudo pertence a Deus. Sendo assim, o dízimo funciona como prova de fé. Quando devolvemos a Deus dez por cento do que dele recebemos estamos a colocá-lo à prova. Foi Ele que disse: “Fazei prova de mim”. Este é o único momento em que temos o direito de colocar Deus à prova.

Responsabilidade dos membros

A igreja é o conjunto dos fiéis, não o edifício. A responsabilidade pelo sustento da obra do Senhor pertence aos membros de cada igreja local. A prática do dízimo, além das ofertas alçadas, está relacionada com a necessidade de suprir as necessidades financeiras da casa de Deus. Contribuir para o sustento do centro de adoração é mais do que um dever do cristão, é um verdadeiro privilégio, pois torna os fiéis participantes da Obra, verdadeiros cooperadores de Deus.

A lei da sementeira e da colheita

Se alguém quer ser abençoado na sua vida financeira tem que semear no reino. Se semear amor colhe amor, se semear perdão, colhe perdão, se semear finanças colhe finanças. Ninguém colhe batatas se semear cebolas. Colhemos da mesma espécie que semeamos. Mas este princípio não funciona apenas no tocante à qualidade da semente, mas também à quantidade. Quem semeia muito colherá muito, quem semeia pouco, pouco há de colher.

Por muitas dificuldades que o agricultor passe não cairá no erro grosseiro de comer as sementes. Ele sabe que precisa delas para as lançar à terra, pois são a garantia de que virá a colher, no seu tempo, o que semear.

Mas é exactamente isto que acontece a muitos cristãos. Em vez de semear a semente que Deus lhes coloca na mão, comem-na… Quando chega a hora da sementeira não há semente para lançar à terra. E não havendo semente não haverá colheita. Pense nisso.


1.2 – Dízimo, preceito cristão? De autoria do Pastor Alderi Souza de Matos, Doutor em história da igreja pela Universidade de Boston.

A prática do dízimo é um tema controverso nas igrejas evangélicas, tendo, de um lado, defensores apaixonados e, do outro, críticos ardorosos. Para alguns, é uma espécie de legalismo judaico preservado na igreja cristã. Para outros, trata-se de uma norma divina que tem valor permanente para o povo de Deus, na antiga e na nova dispensação. Os críticos do dízimo afirmam que a sua obrigatoriedade é contrária ao espírito do evangelho, pois Cristo liberta as pessoas das imposições da lei. Os defensores alegam que essa posição é interesseira, porque permite às pessoas eximirem-se da responsabilidade de sustentar generosamente a igreja e as suas actividades. O grande desafio nesta área é encontrar o equilíbrio entre estas posições divergentes. O que está em jogo é uma questão mais ampla - o conceito da mordomia cristã, do uso que os cristãos fazem dos seus recursos e bens.

Os dados bíblicos

O dízimo (do latim decimu) pode ser definido como a prática de dar a décima parte de todos os frutos e rendimentos para o sustento das instituições religiosas e dos seus ministros. Trata-se de um costume antigo e generalizado, sendo encontrado tanto no judaísmo como nas culturas vizinhas do Oriente Médio. Esta prática é claramente estabelecida no Antigo Testamento, sendo até mesmo anterior à lei de Moisés Génesis 14:20; Génesis 28:22. O dízimo era devido primariamente a Deus, como expressão de gratidão pelas suas bênçãos e como sinal de consagração. Mais tarde, tornou-se um preceito formal na vida religiosa dos hebreus Levítico 27:30/32, sendo destinado especificamente para o sustento dos levitas Números 18:21/24.

No Deuteronómio, está associado a uma refeição comunitária festiva e ao auxílio aos necessitados Deuteronómio 12:17/19; Deuteronómio 14:22/29; Deuteronómio 26:12/14. Às vezes era dado liberalmente II Crónicas 31:5/6; Neemias 10:37/39; Neemias 12:44 noutras ocasiões retido, fraudulentamente Miqueias 3:8/10.

Nos escritos do Novo Testamento, o dizimo é mencionado explicitamente apenas nos Evangelhos e na epístola aos Hebreus, sempre em relação aos judeus. Jesus aprovou a prática, mas censurou-a quando se tornava uma expressão de frio legalismo Mateus 23:23; Lucas 11:42; Lucas 18:12; ver Amós 4:4. Em Hebreus, é mencionado em conexão com Melquisedeque, uma figura do sacerdócio de Cristo Hebreus 7:1/10. As epístolas Paulinas falam muito sobre ofertas para a comunidade, mas a sua ênfase maior é sobre as contribuições voluntárias II Coríntios 9:6/7. O Novo Testamento não fornece muitas informações sobre o sustento do trabalho regular da igreja. Todavia, as informações disponíveis destacam atitudes como gratidão, fé, amor e generosidade como motivações centrais da mordomia cristã.

O dízimo na história

o início da igreja, a informalidade e a simplicidade das estruturas não exigiam muitos recursos para a sua manutenção. Não havia templos nem ministério a tempo integral (muitos líderes eram “fazedores de tendas”, como Paulo). A maior carência estava na área social ou beneficente. Daí a grande ênfase nas ofertas, principalmente em situações de particular necessidade (ver I Coríntios 16:1/4; II Coríntios 8:1/24 e II Coríntios 9:1/15). No entanto, o princípio de que a contribuição devia ser marcada pelo desprendimento e liberalidade manteve-se, como se pode ver na Didaquê, um manual eclesiástico do 2° século: “Tome uma parte do seu dinheiro, da sua roupa e de todas as suas posses, segundo lhe parecer oportuno, e os dê conforme o preceito” (13.7). No final do mesmo século, Ireneu de Lyon referiu-se aos cristãos como aqueles que “separam todas as suas posses para os propósitos do Senhor, entregando de modo alegre e espontâneo as porções não menos valiosas da sua propriedade” (Contra as heresias IVI8).

Com o passar do tempo e a crescente institucionalização da igreja, houve a necessidade de uma forma padronizada de contribuição. Assim, recorreu-se ao precedente bíblico já conhecido e testado durante muito tempo – o dízimo. Ao longo dos séculos, ele tornou-se obrigatório – uma espécie de imposto eclesiástico – e na época de Carlos Magno passou a integrar a lei civil.

No final da Idade Média surgiram abusos quando os dízimos, em certos casos, se tornaram um instrumento para a compra de cargos eclesiásticos (simonia). Houve controvérsias quando as pessoas procuravam fugir ao pagamento dos dízimos enquanto outras tentavam apropriar-se desses rendimentos para si mesmas. Os países que tinham igrejas estatais recolhiam os dízimos dos fiéis em troca do sustento da igreja e do pagamento dos salários dos ministros (côngrua). No Brasil colonial, em virtude do sistema conhecido como “padroado”, o dízimo tornou-se o principal tributo arrecadado pelo estado português.

Validade actual

A questão que se coloca é a seguinte – o dízimo é valido hoje em dia para os cristãos? É uma forma legítima de contribuição cristã? São muitos os factores a serem considerados na procura de uma resposta. Em primeiro lugar, é preciso atentar para o ensino bíblico global sobre o lugar que os bens devem ter na vida do crente. Deus é o senhor e proprietário supremo de todas as coisas. Os seres humanos são mordomos, ou seja, administradores dos recursos e dádivas de Deus. Aqueles que realmente o amam, que são gratos pelas suas bênçãos e querem servi-lo, sentir-se-ão movidos intimamente a contribuir para causas que engrandecem o seu nome.

A segunda consideração é pragmática. A igreja é uma associação voluntária. Ela não tem outra fonte estável de sustento a não ser as contribuições dos seus membros. As ofertas ocasionais são, comprovadamente, insuficientes para atender a todas as necessidades financeiras da comunidade cristã. Torna-se necessário um método de contribuição que seja regular, generoso e proporcional aos recursos dos fiéis.

Outro argumento baseia-se numa comparação entre Israel e a igreja. Os cristãos entendem que têm recebido bênçãos muito maiores que a antiga nação judaica. O que para esta estava na forma de promessas, para os cristãos são realidades concretas, presentes.

A vinda do Messias, a sua obra de redenção, os seus ensinos e dos seus apóstolos (o Novo Testamento), a dádiva do Espírito Santo e a revelação mais plena da vida futura são exemplos desses grandes benefícios usufruídos plenamente na nova aliança. Daí, decorre o seguinte raciocínio: se Deus prescreveu o dízimo para o antigo povo de Israel, seria de se esperar que ele requeresse menos dos cristãos, detentores de maiores dádivas? Portanto, muitos estudiosos concluem que o dízimo deve ser, não o teto da contribuição cristã, mas o piso, o mínimo, o ponto de partida.

Conclusão

A questão do dízimo é tão difícil para muitos cristãos porque toca numa parte sensível da sua vida - o bolso. Parece excessivo entregar um décimo dos rendimentos a Deus, para a causa de Cristo. Nem todos têm o desprendimento e a generosidade da pobre viúva elogiada por Jesus Mateus 12:41/44 Todavia, o dízimo pode ser uma bênção na experiência do cristão em dois sentidos. Primeiro, como um desafio para a sua vida espiritual. Dar o dízimo pressupõe uma relação de amor, gratidão e compromisso com Deus e com as pessoas que serão beneficiadas com essa contribuição. Em segundo lugar, é também um desafio para a melhor administração da vida financeira. Muitas pessoas têm dificuldade em contribuir para a igreja e suas causas porque são financeiramente desorganizadas, gastam mais do que podem, não têm sentido de prioridades. A prática do dízimo produz uma disciplina que beneficia outras áreas da vida. Para aqueles que querem trilhar este caminho, a sugestão é que comecem a aumentar gradativamente a sua contribuição, até atingir o padrão do Antigo Testamento... e então ir além dele.








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